O que fazemos hoje com o pensamento de Amílcar Cabral? E como garantimos que chega às novas gerações?
No passado dia 28 de outubro, estive no Seixal, no colóquio A Influência do Pensamento de Amílcar Cabral: das Lutas pela Independência aos Nossos Dias, integrado nas comemorações dos 50 anos do 25 de Abril e da Constituição da República Portuguesa.
Foi uma tarde de reflexão sobre história, memória, identidade e liberdade. Ao longo das intervenções, fui tomando notas e formulando perguntas. Algumas acompanharam-me depois de sair.
Uma das ideias que mais me marcou foi a necessidade de distinguir patriotismo de nacionalismo. Amar um país e valorizar a sua cultura não significa ignorar as suas contradições ou deixar de questionar as estruturas que condicionam a liberdade e a dignidade humana.
Também me pareceu importante compreender a luta de Amílcar Cabral para além de uma oposição entre africanos e portugueses. A luta anticolonial era igualmente uma luta contra um sistema político assente na dominação, exploração e desigualdade. Esta distinção ajuda-nos a evitar leituras simplificadas da história.
Quem conta a história e quem fica de fora?
A intervenção de Ângela Benoliel Coutinho, cujo trabalho de investigação inclui as trajetórias dos dirigentes do PAIGC e a participação das mulheres nas lutas de libertação, levou-me a pensar em quem reconhecemos quando contamos a história.
As narrativas tendem a destacar grandes figuras e acontecimentos, deixando menos visíveis os contributos de mulheres, jovens e comunidades.
Recuperar essas histórias não diminui o papel das figuras centrais, pelo contrário, permite compreender melhor a dimensão coletiva das transformações sociais e políticas.
Como aproximar este legado das novas gerações?
Esta questão ganhou particular relevância no painel com Miguel de Barros, Flávio Almada e Scar Martins.
A conversa fez-me refletir sobre o papel da juventude, da cultura como espaço de expressão política e da língua enquanto veículo de conhecimento, identidade e pertença.
Preservar a memória não é apenas transmitir o que foi construído no passado, é criar condições para que as novas gerações conheçam esse pensamento, o questionem e encontrem formas de o relacionar com as suas próprias experiências.
E aqui a educação assume uma responsabilidade fundamental, não basta evocarmos Cabral em conferências ou homenagens se não criarmos oportunidades para conhecer e discutir as suas ideias.
Importa perguntar: que histórias contamos, em que línguas e que espaço damos aos jovens para construírem as suas próprias interpretações?
Da consciência à ação coletiva
Outra ideia que registei foi a importância da organização coletiva, porque nenhuma transformação social se constrói apenas pela vontade de uma pessoa.
O pensamento de Cabral convida-nos a relacionar consciência, conhecimento, organização e ação. Num tempo em que o protagonismo individual ocupa tanto espaço, esta reflexão parece-me especialmente pertinente.
Reconhecer uma injustiça é importante, mas não chega. A mudança exige participação, compromisso, objetivos comuns e disponibilidade para questionar.
E as perguntas continuam atuais: que desigualdades persistem nas sociedades que conquistaram a independência? Que relações de poder continuam a condicionar a vida das pessoas?
Quando olhamos, por exemplo, para os protestos pelo direito à habitação em Portugal, somos confrontados com questões fundamentais sobre justiça social, prioridades políticas e responsabilidade coletiva.
Quem beneficia das decisões tomadas? Quem suporta as consequências? E como nos organizamos para transformar aquilo que consideramos injusto?
É nesta capacidade de compreender as estruturas de desigualdade e agir coletivamente que encontro uma das dimensões mais atuais do pensamento de Cabral.
Um legado para continuar a questionar
Uma das ideias que anotei no final do encontro resume um lembrete que levo comigo: Pensar para agir e agir para pensar melhor.
Saí do colóquio com a convicção de que preservar a memória de Amílcar Cabral não pode significar apenas celebrar o passado ou transformar a sua figura numa referência intocável.
É necessário continuar a estudar o seu pensamento, reconhecer a complexidade do seu percurso e criar espaços de diálogo onde as suas ideias possam ser discutidas com liberdade e sentido crítico.
Conhecer a história é também adquirir ferramentas para compreender o presente e participar na construção do futuro.
A melhor forma de honrarmos o pensamento de Amílcar Cabral é mantê-lo vivo, acessível e aberto ao questionamento.
Deixo, por isso, mais uma pergunta para reflexão: que responsabilidade estamos dispostos a assumir na transmissão e na transformação deste legado?


