Caixas de alta tensão: a vez do RGPDH
"Apesar de me blindar todos os dias para conter a ofensiva de insultos, não sou imune ao seu impacto."
Como quem abranda a marcha rodoviária diante de um acidente, num impulso voyeurista que obedece a uma curiosidade mórbida, não resisto a ler os comentários que polarizam publicações nas redes sociais.
O exercício, por vezes obsessivo, inibe-me, contudo, de ir além da leitura, que procuro usar como fonte, ao serviço da minha actualização de um extenso e crescente manancial de construções e manifestações racistas.
Filtro deste trabalho de pesquisa a obviedade dos insultos, para me ater às subtilezas da discriminação, ginástica útil para a consolidação do meu argumentário anti-racista, bem como para a criação de conteúdos que apresento em palestras, painéis de discussão e workshops.
Escrito de outro modo: procuro ir ao encontro dos discursos dissimulada ou inconscientemente racistas, e, por mais que nesse processo me tenha de confrontar com discursos aberta e assumidamente de ódio, dou-lhes o mesmo tratamento-zapping que emprego perante a berraria que tomou conta dos espaços de comentário televisivo.
Não cedo, por isso, à tentação do confronto com quem toma agressão por opinião, da mesma forma que me recuso a contaminar o meu espaço de intervenção com mensagens que abomino. Faço-o porque entendo que denunciar o que é abjecto não tem de passar por replicá-lo, ao passo que replicar o abjecto tem sempre como resultado amplificá-lo.
Dispenso esse dano colateral, mas compreendo quem o assuma como estratégia de combate ao racismo, num território cada vez mais minado de “armadilhas aliadas”.
Nesse processo, receio apenas que o dano se torne viral ao ponto de matar todo e qualquer anticorpo capaz de proteger a nossa saúde mental, adoecendo-nos “por dentro”, enquanto insistimos em aguentar e contra-atacar “por fora”.
Mais do que temer o efeito fatal, observo-o à minha volta, entre as caixas de comentário que, semana após semana, acompanham a divulgação dos episódios d’ O Tal Podcast.
Apesar de me blindar todos os dias – todos, todos, todos – para conter a ofensiva de insultos que se dirige ao formato e às pessoas que convidamos, não sou imune ao seu impacto corrosivamente destrutivo.
Pode alguém sê-lo, sem que esteja já irremediavelmente desumanizado? Acredito que não, por isso – num gesto de protecção humana – faço questão de ir medindo sensibilidades, o que passa, irremediavelmente, pela exposição às insensibilidades.
É diante delas que me ocorre a seguinte possibilidade: vincular as plataformas digitais a uma espécie de RGPDH – Regulamento Geral para a Protecção da Dignidade Humana, incompatível com algoritmos de polarização.
Pergunto-me apenas se o carácter adictivo, hoje associado à presença online – e aos lucros bilionários das gigantes tecnológicas – se manteria depois de esvaziadas as caixas de alta tensão.
Desconheço a resposta, mas sei que vale a pena testar para ver, do mesmo modo que acredito que esse é um trabalho que exige mudança colectiva para se tornar sustentável. Justamente como defendeu Israel Campos, aquando da passagem pelo O Tal Podcast.
“Vou-vos confessar que fiquei um bocado receoso com o convite, porque acompanho este programa e as publicações que são feitas nas redes sociais”, partilhou o jornalista, para quem os ataques ao formato resultam do facto de a presença e protagonismo negros continuar a ser uma afronta à estética-mediática portuguesa – ainda quase exclusivamente branca.
“Um país que celebrou os 51 anos do 25 de Abril e continua a ter tanta dificuldade de lidar com o seu passado histórico, que continua a arranjar artimanhas para justificar o injustificável, e a ser incapaz de ouvir o outro, é um país que terá muita dificuldade em fazer um caminho de progresso”, antecipa Israel, atento às armadilhas que travam esse percurso. Por exemplo, aponta o também escritor, a inclusão e a diversidade têm de deixar de ser tratadas como pautas propagandísticas, para se tornarem uma realidade “que reflita o olhar humano sobre os ‘outros’ que contribuem, e que fazem o país acontecer todos os dias”.


