Conquistar sem possuir, Amar para libertar
Amo a liberdade, por isso todas as coisas que amo deixo livres.
Na adolescência, durante largos anos, a minha cama tinha vista para um mural de cortiça, povoado de afectos vividos, fantasiados e idolatrados. Ali cabiam fotografias que me surpreendiam a cada revelação, sem os novos filtros de manipulação nem as poses repetidas até um delírio inalcançável de perfeição. Também se destacavam posters, postais e recortes de publicações desportivas, onde plantéis do Sport Lisboa e Benfica se iam alinhando em títulos e recordes. Nessa constelação de imagens, havia igualmente uma míngua de espaço para pequenas citações.
Coleccionava-as a partir das páginas da “Capricho” e da “Carícia”, revistas que me aproximavam do Brasil, em especial do universo Globo de tantas novelas, e da moda livre e solta que, a cada publicidade da Azaleia, me fazia sonhar com uma vida percorrida em sandálias.
Regresso a esse meu mundo adolescente erguido sobre cortiça – hoje disperso por caixas e caixinhas de arrumação –, depois de, entre comentários e reacções à mais recente campanha da APAV de sensibilização para a violência no namoro, me ter lembrado de uma das mensagens que lhe dava mais cor.
Passo a citar: “Amo a liberdade, por isso todas as coisas que amo deixo livres. Se voltarem foi porque as conquistei, se não voltarem foi porque nunca as possuí”.
Sei bem quem foi que me fez adorar a frase, partilhada e desfrutada em forma de presente, da mesma forma que me recordo perfeitamente de ter lido nela uma declaração desprendidamente apaixonada. Vibrei com cada uma das letras, gravadas no repertório das minhas melhores memórias adolescentes, felizmente construídas sem recortes de abusos, tantas vezes confundidos com afectos.
Percebo agora que o tempo me trouxe um entendimento profundamente diferente dessa mensagem, levando-me a reler e confrontar as palavras que, há cerca de 30 anos, afixei sobre a parede do meu quarto.
Haverá assim tantas diferenças entre as narrativas de género que guiaram a minha adolescência e aquelas que encontro na juventude do presente? Ou estarão ‘apenas’ mais escancaradas, activando felizmente, maior consciência e vigilância, mesmo que ainda não de modo generalizado?
Das minhas reinterpretações do passado para as actualizações de agora, torna-se impossível não pesar as elevadas taxas de femicídio, indissociáveis da romantização do controlo, atrelada à banalização da partilha de quotidianos online. Quando a posse se torna viral, como combatê-la?
Escrevi sobre um desses alertas no texto “As miúdas querem-se como os carros: zero quilómetros”, ao qual regresso por causa do ‘RelationChip’, dispositivo de retorno àquela frase de encantamento adolescente e inocente.
Releio: “Amo a liberdade, por isso todas as coisas que amo deixo livres. Se voltarem foi porque as conquistei, se não voltarem foi porque nunca as possuí”.
Aqui chegada, pergunto como é que possuir surge na antecâmara de conquistar? Desde quando é que amar se conjuga com posse?
Quem ama liberta. Não pode soar como um alerta.


