O equilíbrio que nos falta
A pedagogia da convivência lembra-nos que educar é, antes de tudo, um ato relacional.
No episódio com Miguel de Barros, houve uma expressão que ficou a ressoar em mim como um diagnóstico silencioso do nosso tempo: as relações entre a humanidade precisam de um novo equilíbrio. Não foi dita como slogan nem como resposta pronta. Foi dita como quem reconhece um desajuste profundo — antigo, estrutural, mas hoje mais visível e mais difícil de ignorar.
Quando Miguel falou da pedagogia da convivência, fui imediatamente levada a algo em que acredito há muito tempo: a educação precisa de ser fundada na construção de relações com pessoas cujas experiências, histórias e lugares no mundo são muito diferentes dos nossos. Só assim nos tornamos capazes de compreender o mundo — e o outro — para lá da superfície. Não ao nível da opinião rápida ou da reação automática, mas ao nível da escuta que transforma.
Outra ideia que ficou comigo foi que o desequilíbrio de que falámos aparece de muitas formas. Uma delas é a centralidade crescente do vedetismo: tudo pede palco, validação e visibilidade imediata. Pouco pede responsabilidade, continuidade ou vínculo. Neste contexto, o risco não é apenas esquecer a memória coletiva, mas usá-la sem compromisso — invocá-la sem a honrar, transformando-a em capital simbólico ao serviço do “eu”. Este uso instrumental do passado aprofunda o desequilíbrio porque fragiliza aquilo que sustenta a vida em comum: a responsabilidade relacional.
A cultura do vedetismo afasta-nos daquilo que a convivência exige: tempo, presença e disponibilidade para o desconforto. Conviver não é concordar. É sustentar a relação mesmo quando ela nos confronta. É aceitar que o conflito faz parte da vida comum e que aprender a habitá-lo, sem o negar nem o espetacularizar, é uma das tarefas mais urgentes da educação.
Quando olhamos para um mundo em crise — com contextos como a Venezuela, o Irão e tantos outros marcados por tensão, violência e perda de dignidade humana — a pergunta sobre o sentido da escola e sobre a missão da educação torna-se incontornável. Não como abstração teórica, mas como questão prática, quotidiana e profundamente política.
Se a escola não for um dos poucos espaços onde este novo equilíbrio pode ser ensaiado — onde a diferença não é ameaça nem espetáculo, mas possibilidade de aprendizagem — então o que estamos verdadeiramente a construir? Uma educação que evita o conflito e silencia a diferença pode formar pessoas eficientes, mas dificilmente formará pessoas capazes de viver juntas.
A pedagogia da convivência lembra-nos que educar é, antes de tudo, um ato relacional. Aprende-se no encontro, no estranhamento, na reparação. Aprende-se quando somos chamados a suspender certezas para escutar histórias que não cabem na nossa narrativa habitual. Compreender exige relação. E relação exige ética.
Num tempo obcecado com resultados, métricas e performance, insistir na centralidade das relações pode parecer ingénuo. Mas talvez seja exatamente o contrário. Talvez seja radical — no sentido de ir à raiz daquilo que nos falta enquanto humanidade.
Se as relações entre a humanidade precisam de um novo equilíbrio, como Miguel afirmou, então a educação tem um papel incontornável nesse processo. Não como resposta fechada, mas como espaço vivo de perguntas, encontros e transformação.
Um lugar onde aprendemos que viver juntos dá trabalho — e que esse trabalho é, talvez, o mais importante de todos.



