Revelações aos 50
Estas mulheres ensinaram-me, através das suas vidas, que é possível transformar a resistência em cuidado, a adversidade em presença e as dificuldades em força para continuar.
Este fim de semana comemorei os meus 50 anos e é curioso perceber como, por mais “consciente” que seja, também me deixo levar pelas ideias que fui aprendendo a associar a cada idade: “Já cheguei a este momento e agora?”, “Nesta fase da vida já devia ter isto ou aquilo”, “Se calhar já devia ter conquistado muito mais coisas”.
No meio destas ruminações, lá parei, irritada comigo mesma por não estar simplesmente focada em todos os motivos que tenho para celebrar: tenho 50 anos, estou aqui e continuo a ter a possibilidade de escolher, de criar, de questionar, de aprender e de lutar por aquilo em que acredito.
Sou uma mulher e negra, sei que o caminho que percorri e percorro não é, muitas vezes, feito apenas das minhas escolhas, do meu esforço ou da minha vontade, porque existem obstáculos que foram impostos, portas que se fecharam, expectativas frustradas e circunstâncias que obrigaram, demasiadas vezes, a lutar mais para alcançar aquilo que outras pessoas conseguem com muito menos resistência.
Os tempos não estão fáceis para ninguém, a vida está cada vez mais exigente, o custo de viver pesa cada vez mais, o preço da gasolina e do gasóleo são quase um crime contra o nosso bem-estar e assistimos diariamente a discussões, conflitos e a uma espécie de cansaço colectivo que parece atravessar todos os espaços da nossa vida.
E, no meio deste caos, há algo que continua a comover-me: olhar para mulheres como a minha mãe e as minhas tias e perceber como continuam disponíveis para cuidar, organizar, preparar festas, celebrar, receber, alimentar, juntar a família e criar momentos de alegria, muitas vezes sem reclamar. Eu, que tantas vezes me queixo de coisas que, quando comparadas com aquilo que elas atravessaram e fizeram, parecem tão pequenas, vou aprendendo a reconhecer cada vez mais a dimensão daquilo que me foi legado.
Estas mulheres ensinaram-me, através das suas vidas, que é possível transformar a resistência em cuidado, a adversidade em presença e as dificuldades em força para continuar. E é também por isso que estes 50 anos não podem ser apenas sobre aquilo que ainda não alcancei ou sobre aquilo que, em algum momento, achei que já deveria ter conquistado, mas sobre tudo aquilo que foi necessário para que eu chegasse até aqui.
Sou profundamente grata por tudo aquilo que a minha família fez e continua a fazer para que hoje eu possa estar aqui, a escrever sobre estas experiências, a pensar sobre a minha vida, a questionar, a criar, a escolher e, sobretudo, a existir com cada vez mais consciência de quem sou, daquilo que me move e daquilo que quero para a minha vida, sem sentir que tenho de me justificar perante ninguém.
Este espaço que hoje ocupo só existe graças à generosidade de tantas pessoas que, antes de mim, abriram caminhos, enfrentaram obstáculos, fizeram escolhas difíceis e criaram condições para que eu pudesse caminhar um pouco mais longe.
Dos muitos presentes que recebi neste aniversário, houve dois que se destacaram particularmente, mas hoje quero partilhar convosco apenas um deles: um álbum com vários registos fotográficos da minha vida, desde os primeiros anos até aos dias de hoje. Um presente belíssimo que, mais do que reunir fotografias, me devolveu pedaços da minha própria história e me permitiu revisitar momentos, pessoas, lugares e versões de mim que, com o passar dos anos, foram ficando guardados na memória.
Foi um presente que me ajudou a celebrar, mas também a reflectir e a olhar para o caminho percorrido com outros olhos, reconhecendo as conquistas, as dificuldades, as pessoas que estiveram presentes e todas as versões de mim que foram necessárias para chegar à mulher que sou hoje. E confesso que, ao folhear aquelas páginas, senti um orgulho gigante de toda a jornada, não apenas pelo que alcancei, mas sobretudo pela forma como fui construindo o meu caminho, muitas vezes sem saber exactamente para onde ele me levaria.
No último episódio deste podcast, o Virgílio Varela disse uma frase que fez todo o sentido para mim: “A minha existência só é possível através da generosidade das pessoas, a generosidade dos meus pais por me ter trazido ao mundo, a generosidade da comunidade que ficou à volta… .” E esta partilha ganhou, para mim, um significado ainda maior neste aniversário, porque a minha existência também é atravessada pela generosidade da minha família, das mulheres que vieram antes de mim, das pessoas que abriram portas, estenderam a mão, acreditaram, cuidaram e, muitas vezes sem sequer saberem, contribuíram para que eu pudesse chegar onde estou.
Por isso, celebrar 50 anos é, para mim, muito mais do que assinalar uma idade ou fazer um balanço daquilo que alcancei e daquilo que ainda falta alcançar; é reconhecer o caminho, honrar quem caminhou comigo, agradecer a quem tornou o percurso possível e permitir-me olhar para a minha própria história com orgulho, ternura e gratidão.
50 anos, meio século de vida, e ainda tanto por viver.


