Já não sei quantas vezes escutei «Shanti Shanti», quando falo sobre espiritualidade, energia, bem-estar ou quando começo uma frase por «sinto que...». Ou quando partilho que a minha intuição é muito forte, que raramente me engana e que quase sempre me arrependo quando não a escuto. Sei que muitas vezes me é dito com carinho e outras naquele tom que dispensa grandes explicações. Curiosamente, a expressão é sempre a mesma, mas aquilo que me provoca depende muito de quem a diz, de como a diz e, sobretudo, do momento em que decide dizê-la.
Shanti vem do sânscrito e significa paz. É uma palavra bonita, com uma profundidade que vai muito além da utilização ligeira que tantas vezes fazemos dela. Nas tradições espirituais indianas, está associada à paz interior, à tranquilidade e à harmonia, sendo frequentemente repetida três vezes como uma invocação de paz nas diferentes dimensões da existência. E eu gosto da palavra, do que significa. Gosto da ideia de paz, da serenidade que vamos conquistando à medida que aprendemos a conhecer-nos, a escolher as nossas batalhas e a perceber que nem tudo merece uma reação.
Mas há qualquer coisa que me intriga quando alguém me diz que sou muito «Shanti Shanti», sobretudo quando estou a falar de espiritualidade, a partilhar aquilo que sinto ou a confiar na minha intuição. Fico a pensar nas diferentes formas como podemos interpretar uma mesma expressão. Sei que muitas vezes nasce do carinho, da cumplicidade e até da brincadeira, mas também me pergunto até que ponto o meu interesse pela espiritualidade pode levar os outros a terem uma ideia de mim que não corresponde a tudo aquilo que sou.
Essencialmente, gosto de conversar, de questionar, de perceber o que está por detrás das coisas. Há assuntos que me atravessam de tal maneira que seria difícil falar deles com a serenidade de quem comenta a previsão do tempo. Também já percebi que nem todas as pessoas apreciam esta forma de estar, o que é legítimo. Tal como é legítimo que eu não tenha de me transformar numa versão mais conveniente de mim própria para corresponder às expectativas dos outros.
Gostamos de pessoas autênticas, mas nem sempre daquilo que têm para nos dizer. Admiramos quem tem convicções, até ao momento em que essas convicções entram em conflito com as nossas. E falamos muito de liberdade, embora continuemos a sentir algum desconforto perante quem a exerce de uma forma diferente daquela que consideramos aceitável.
Foi também sobre esta relação entre aquilo que sentimos, aquilo que expressamos e a forma como escolhemos estar no mundo que as conversas recentes d’O Tal Podcast me fizeram pensar.
Com o Welket Bungué, a espiritualidade surgiu como um caminho de autoconhecimento, mas também de transformação. Falámos de intuição, de silêncio, da importância de reconhecermos a luz e a sombra que existem em nós. E fiquei a pensar que procurar a paz interior não significa desligarmo-nos do mundo, das suas injustiças ou das nossas próprias inquietações.
Já a Bia Ferreira fez-me pensar na coragem que é escolher a alegria num mundo que tantas vezes nos dá razões para o contrário. Depois de anos a cantar a dor, decidiu dar também espaço ao amor, ao afeto e àquilo que a cura. E fiquei com esta ideia: não permitir que a dor nos defina, sem deixar de reconhecer ou denunciar aquilo que nos magoa.
E volto à ideia de paz, à forma como, ao longo da vida, a vamos confundindo com ausência de conflito, maturidade com contenção e equilíbrio com a capacidade de não reagir. Mas nem sempre o silêncio é sinal de serenidade, às vezes é apenas cansaço, resignação ou vontade de evitar mais uma conversa difícil.
Também reconheço que nem todas as minhas inquietações precisam de ser partilhadas, que nem todas as opiniões precisam de ser defendidas até ao fim e que há momentos em que o melhor que posso fazer por mim é simplesmente não entrar em determinadas discussões. Estou a aprender isso, mas nem sempre com a rapidez que gostaria.
A paz que procuro não é a de deixar de sentir, de questionar ou de me indignar. É a de conseguir fazer tudo isso sem me perder pelo caminho.
Quanto ao resto, continuaremos a conversar. Provavelmente com entusiasmo.
Shanti, Shanti…


