Uma casa de afetos num mundo de ódio
"O objetivo foi criar espaço para conversas que, durante demasiado tempo, tiveram pouco espaço."
Será possível controlar o incontrolável?
O Tal Podcast nasceu para ser uma casa de afetos, um lugar onde pessoas negras podem contar a sua história de vida, partilhar o seu percurso, falar das escolhas que fizeram e refletir, com liberdade, sobre o país e o mundo onde vivem.
Não nasceu para alimentar divisões ou criar polémicas. O objetivo foi criar espaço para conversas que, durante demasiado tempo, tiveram pouco espaço.
Mas quase sempre que são publicadas algumas citações dos episódios nas redes sociais da SIC, SIC Notícias e Expresso, surgem comentários de ódio.
Não me refiro à discordância, até porque discordar faz parte de qualquer sociedade democrática. Refiro-me ao ódio, à desumanização, aos comentários que deixam claro que o que verdadeiramente incomoda não é a opinião expressa, mas o facto de ser uma pessoa negra a expressá-la.
A capacidade de analisar criticamente a sociedade não deveria depender de quem fala. Ainda assim, há vozes que continuam a ser consideradas legítimas e outras cuja simples existência incomoda. Para muitas pessoas negras, permanece a expectativa de que ocupem menos espaço, façam menos perguntas e que mantenham a discrição, contenção e silêncio.
Há muito que desenvolvi uma prática de autocuidado: leio pouco esses comentários. Não porque me sejam indiferentes, mas porque aprendi que a exposição contínua ao ódio tem um custo emocional.
Em vez de me perder nesse ruído, escolho concentrar a minha energia noutra pergunta: Como estarão os nossos convidados e convidadas a sentir-se? O que podemos fazer para que saibam que não estão sozinhos? Como protegemos quem teve a coragem de partilhar a sua história?
Recentemente reunimos a equipa que criou O Tal Podcast — eu, a Paula e o Yuri — precisamente para refletirmos sobre isto. Voltámos a reafirmar aquilo que sempre quisemos que este projeto fosse: uma casa segura, um espaço de respeito, um lugar onde as pessoas se sintam vistas antes de se sentirem julgadas.
Infelizmente, recentemente, os episódios de Cátia Severino e do Carlos Kangoma voltaram a mostrar-nos que esse cuidado, por si só, não chega para impedir a avalanche de comentários que tantas vezes transforma uma conversa numa caixa de ressonância do preconceito.
E é aqui que volto à pergunta inicial.
Será possível controlar o incontrolável?
A falta de consciência pode ser controlada? E o preconceito? E o ódio?
Como se impede quem encontra na desumanização dos outros uma forma de dar sentido à própria vida?
Para já, acredito que o que podemos controlar é outra coisa.
Podemos continuar a escolher quem convidamos. Continuar a dar palco a histórias que merecem ser ouvidas. E continuar a cuidar do espaço que construímos, para que quem por aqui passe encontre um lugar onde não precise de encolher a própria voz.
E acima de tudo, podemos continuar a não ceder à tentação de moldar as conversas para evitar reações. Porque, no dia em que o fizermos, será o ódio a definir aquilo que pode ou não ser dito. E a meu ver, isso seria uma derrota demasiado grande.
Talvez um dia alguém estude seriamente este fenómeno: porque é que uma pessoa negra, ao exercer o seu direito à crítica ou ao partilhar episódios da sua própria vida, desperta tanta hostilidade em quem nunca se sentiu verdadeiramente interpelado pela sua posição no mundo.
Até lá, continuaremos a fazer aquilo que sabemos fazer: escutar, perguntar e criar espaço para conversas que merecem ser ouvidas.
E acreditar que, apesar do ruído, há muito mais pessoas disponíveis para escutar do que para odiar. É por elas que continuamos.
Sempre.



Boa tarde, o meu nome é Liliana e falei consigo no domingo no espetáculo dos Tubarões, como lhe disse oiço-o, ou tento ouvir sempre á sexta-feira e embora não tenha ouvido todos, ouvi alguns e senti exatamente que era um espaço de acolhimento tão necessário num mundo cada vez mais hostil. O mundo esta um lugar muito estanho, principalmente para quem já não permite que sejam outros a contar a sua historia. Eu também me encontro nesse lugar de já não permitir que sejam outros a contar a sua maneira, a minha história, Se tem sido fácil? Não, tenho sentido resistência em muitos sítios, inclusive no meu local de trabalho, onde a principal temática são os direitos humanos, calcule-se? Querem colocar-me no papel da vitima, que estou sempre a reclamar de tudo e de todos, sendo a única negra na equipa, e existem poucos outros técnicos negros no departamento e até na Autarquia, sinto que tenho constantemente de provar o meu valor.
Comecei então a procurar informação sobre estes temas para conseguir falar de racismo, representatividade, e de outos temas com mais segurança e um conhecimento que não fosse só empírico, é o vosso podcast tem sido uma grande ajuda nesse sentido, para que eu possa estar de forma mais consciente nos desafios que encontro como mulher negra.
Acho que as coisas estão mais difíceis agora do que quando eu cresci, e faço o meu papel atento também na educação da minha filha.
As batalhas são muitas, com os livros escolares, com o lápis cor de pele, sou sempre a mãe que questiona este tipo de coisa, infelizmente ainda tão presente nas nossa escolas públicas e privadas.
Isto tudo para dizer, continuem, a luta esta difícil, mas sinto que cada vez somos mais, e em variados sítios, a não deixar que sejam outros a contar a nossa História.
Até que os leões contem as suas próprias historias os caçadores serão sempre os heróis das narrativas de caça.
Adotei também este seu pensamento, que tenho exposto na minha secretária para guiar os meus dias de trabalho " Enquanto eles capitalizam a realidade. Eu socializo o meus sonhos- A Luta Continua.
Liliana
O vosso podcast é extraordinário. Os vossos entrevistados são sempre interessantes. Tenho aprendido muito. Tenho alargado horizontes. Não mudem nada!