Só depois
É preciso correr o programa, descarregar a aplicação, fazer a pergunta.
Em Novembro de 1936, um peculiar e brilhante matemático britânico escreve um artigo sobre os limites reais da computação algorítmica e muda para sempre a história da tecnologia. As conclusões do artigo são tão elegantes quanto peremptórias: nenhuma regra inicial, nenhuma fórmula consegue decidir à partida o que um programa vai fazer, quando executado numa máquina universal.
Ou seja - existe um motivo razoável para a subscrição anual paga às empresas de antivírus, e uma expectativa normal de sucessivos leaks, hacks e outras perfurações da suposta armadura perfeita da cibersegurança. Os computadores de que dispomos - cuja arquitectura não evoluiu muito desde o século passado - nunca serão capazes de antever a conclusão de um processo a priori.
É preciso correr o programa, descarregar a aplicação, fazer a pergunta. O que Alan Turing enunciou foi um limite das previsões, das certezas e das promessas.
A vida e obra do matemático são hoje, após anos de obscuridade, finalmente parte da cultura popular mainstream: em filme e televisão, na literatura, e na consagração oficial da moeda.
Mas a importância da sua irresistível reflexão sobre a natureza dos números e das células vai para além do digital e do electrónico. Aponta para um constrangimento maior na forma como se pode organizar a realidade híbrida dos átomos, dos bits, do planeta - na maneira como devemos interpretar os anúncios recorrentes da chegada das máquinas invencíveis.
A ironia é irrecusável: as novas inteligências artificiais simulam quase na perfeição a linguagem humana e são ao mesmo tempo - talvez por isso? - definidas pela incerteza, o erro, pela incapacidade básica de respostas determinísticas e definitivas.
Rodeados de indefinição e de desordem, hoje e sempre, os humanos procuram na solidez dos argumentos o suave conforto da previsibilidade. Mesmo que ténue, a esperança de um futuro mais estável transforma as relações sociais - em pequena e larga escala - num desígnio colectivo de quase crença, quase sempre tão voluntarioso quanto impossível.
O panorama reflecte-se na esfera profissional, onde cada projecto convive forçosamente com o horizonte sempre curto dos orçamentos e da estratégia. Onde cada profissão se torna uma marca, com a procura permanente de mercados e audiências, e cada profissional uma bolsa de valores - oscilante e vulnerável perante as vibrações da geopolítica.
E ainda na esfera interpessoal, armadilhada de métricas e de modelos performativos, onde a ânsia de normalidade se confunde com a febre da verificação, encontramos os limites de Turing e a impossibilidade do conhecimento de antemão. O risco, literalmente, à queima-roupa.
Somados, interseccionados, estes diferentes círculos concêntricos compõem a difusa forma da política contemporânea internacional, onde as linhas opostas se aguçam de acordo com a veemência e o rancor, infelizmente mútuos.
Apesar das campanhas infindáveis e das promessas ocas dos mercenários hábeis, dos contrabandistas e dos profetas homicidas, ninguém aqui sabe ao que vai.
O caminho que percorremos está mais próximo da religião do que da ciência, cada vez mais longe da lei, iluminado em profundo contraste por conflitos primordiais entre os fortes e os fracos. Nenhuma regra, nenhuma fórmula revelará antecipadamente o desfecho da aventura, o carácter final dos personagens quando cair o pano.
“Só depois da vitória é que saberemos porque é que cada um fez a luta.”




